OVNIs – Um Eterno Quebra-Cabeças?

Wilson G. de Oliveira

O monitoramento das instituições terrestres religiões, governos, forças armadas, ciências, etc. por inteligências alienígenas é uma hipótese absurda  para o pensamento científico. Partindo da problemática ufológica, muito poucas hipóteses não o são. Além disso, a idéia de monitorar pode soar muito apropriada a regimes totalitários, o que torna o assunto assustador.

Apenas a ponta do iceberg

A pretexto das dificuldades metodológicas para lidar com os fenômenos e a aversão às visões conspiratórias decorrentes, é que se diz que este tem sido um eterno quebra-cabeças. Poucos se animam a debruçar sobre ele.

Hipóteses absurdas, visões conspiratórias ou não, quando se procura  aprofundar a questão, a partir de um dado momento, não se têm muitas razões para desprezá-las. O pesquisador nestas circunstâncias se sente fragilizado diante da necessidade, por vezes imperiosa de considerá-las. Isso porque, apesar do fenômeno OVNI ser, diante da ciência, absurdo e paradoxal, ele não é menos real. Além disso, não está dissociado das hipóteses de existência de comandos de operações altamente especializadas, na condução dos destinos da vida na terra. Com as visões conspiratórias em relação de causalidade com as ocorrências e suas hipóteses explicativas, o que temos é somente a ponta de um enorme iceberg.

Do local ao global – o imaginário também é real

Importante considerar que embora se constate o fenômeno OVNI através de manifestações localizadas, ele é global. Possui padrões que  vêm sendo observados em todo o planeta. Nesse instante(1992), o melhor a fazer é encontrar as leituras possíveis para o cenário do jogo. Se ele é entendido como um quebra-cabeças, a ser montado, não devemos ter dúvidas que todas as peças estejam sobre a mesa.

No entanto, esse é um aspecto  geral ainda desconhecido dos jogadores. Como jogar um jogo, sem se estar certo de que todas as peças estão no cenário? Mais ainda, é da natueza do quebra-cabeças, que as peças sejam conhecidas ou reconhecidas com o desenrolar do jogo. Fato é, que o jogo começou há algum tempo e ninguém neste planeta está fora dele. Nesse sentido, só se saberá certos detalhes, num estágio mais adiantado.

Posto dessa forma, como então montá-lo?

De 1989 a 1992 foi possível conhecer, a partir do início dos trabalhos do GEU/UnB, artigos e depoimentos, em revistas e boletins e depoimentos  pessoais, verbais ou por cartas, etc.(irecebidos de organizações ufológicas do Brasil e do Exterior, sobre incidentes ufológicos os mais diversos. Nestes, os OVNIs  são, desde balões meteorológicos, fenômenos luminosos naturais e artificiais, passando por navios, aviões fantasmas e aeronaves extraterrestres, até chegar aos seus tripulantes que, segundo as mais diversas interpretações, poderiam ser desde leitores casuais deste artigo, o próprio autor, ou pertencer às cúpulas de várias organizações mundiais, governos, religiões, etc…

Faz-se portanto, diante da grande quantidade de peças, necessário, uma certa preocupação com questões metodológicas na montagem do quebra-cabeças. Pintar o que se pode ver e tentar antever a parte submersa desse iceberg. Sem se preocupar demasiado, nesse momento, com limites criativos.

O pioneirismo – construindo metodologias e formando opinião

Essa tentativa de se alcançar uma metodologia apropriada se faz de forma pioneira, por alguns poucos pesquisadores, há muito tempo, (desde a década de 1940 ou mesmo antes). E a partir desse pioneirismo tão valioso à pesquisa OVNI, parece não se ter construído avanços teórico-metodológicos expressivos.

Cientes das dificuldades, a prática dos pioneiros oferece uma sugestão óbvia. A montagem do quebra-cabeças a partir de peças mais simples e familiares, próximas da sociedade, em significado. A casuística, os casos e histórias bem ou mal contadas, nas  conversas de assombração, rurais e urbanas. Daí suas obras serem referência obrigatória.

A opinião pública, a testemunha, eventuais registros, narrativas, sentidos e significados possíveis. Hipóteses? São muitas as hipóteses e elas sempre apontaram caminhos para a compreensão do problema imediato. Sejam explicações de cunho folclórico ou religioso ou científicas.

Seria possível iniciar toda uma sociedade, tradicionalmente castigada pela falta de instrução escolar básica, em assuntos que alcançam alta complexidade? Só com muito tempo e pedagogia adequada. Considere-se os adjetivos simples (ii)  e familiar(iii), na formação da opinião pública, bem como o perfil das testemunhas sobre o assunto. Tais peças, podem ser consideradas simples ou familiares nesse quebra-cabeças?

Da mesma forma, que se tem buscado por metodologias apropriadas, segundo um modelo de pensamento, pode-se dizer que a formação de uma opinião pública favorável ao entendimento do assunto (muito bem vinda e necessária), também vem sendo construída há muito tempo. Ainda que de forma demasiadamente lenta e distante de um pensamento mais elaborado.

Produção e difusão da informação

Seria coerente, talvez, acões deliberadas com vistas a acelerar esse processo de conhecimento do tema OVNI, (informar mais(iv) e tornar esse processo mais didático.

Observa-se que a sociedade, no mais das vezes pensada como, o contribuinte, deverá legitimar a pesquisa com a aprovação de investimentos, além de assimilar o conhecimento produzido. Isso significa vencer resistências de várias ordens.

Parece ser uma condição para que se avance na formação de uma opinião sobre quaisquer que sejam os temas, o estímulo à produção e difusão daquele conhecimento. Observa-se que isso está ocorrendo com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação cada vez mais presentes no cotidiano. E a existência de projetos específicos relacionados a pesquisa e difusão do tema OVNI deverá seguir  necessariamente essa onda.

O sensacionalismo pode gerar acobertamento

Embora seja mais comum na atividade jornalística, priorizar a divulgação  das ocorrências “absurdas” (complexas) são igualmente importantes, as ocorrências menos “absurdas” (menos complexas). A estas, diz-se muitas vezes apressadamente, tratar-se de fato corriqueiro e são deixadas de lado.

A preocupação demasiada com ocorrências de graus elevados ou ocorrências de tipo HS-High Strangeness (alta estranheza)(v), induz a um tratamento prematuramente seletivo.  Quando ocorrências “simples” dos tipos: DD-Daylight Discs, NL-Nocturnal Lights, RV-Radar/Visual, podem se mostrar igualmente importantes e até mais complexas do que se imagina à primeira vista (veja-se Caso Papuda, um caso do tipo RV-Radar-Visual)(vi).

A imprensa, frequentemente sensacionalista,  descaracteriza com facilidade ocorrências importantes ao confirmar o que “autoridades” dizem apressadamente a respeito. Uma imprensa investigativa e crítica percebe isso e não confirma ou nega antes de confrontar testemunhos diversos. Sabe distinguir os aspectos simples e familiares dos mais complexos. Ao bom repórter preocupa a fidelidade aos fatos e não necessariamente, consequências como a alteração da ordem estabelecida em função desses fatos.

Com sensacionalismo, a descaracterização de ocorrências “simples” ou complexas, induz ao descrédito ou ao acobertamento do fenômeno  perante à opinião pública. Manchetes vazias, referências truncadas, testemunhas desacreditadas, e muito pouca compreensão do fenômeno em si. A comunidade ufológica conta com vasta experiência nesse sentido.

O quebra-cabeça é só um instrumento didático

Em analogia com o jogo quebra-cabeças, a prática tem  sido e continuará a ser do simples para o complexo. Começa-se por uma peça, até a compreensão global do fenômeno OVNI pela sociedade. Ninguém está fora desse jogo.

A construção gradativa de um “objeto social”,  leva à sociedade os meios para conhecer os fatos e melhor julgar. Antagonismos e conflitos no interior da comunidade ufológica sempre existiram. Há que ter um consenso mínimo para a inserção de peças no jogo e às vezes a falta de consenso gera conflitos que se estendem para além da comunidade ufológica, atingindo outros modelos.

Finalmente, o esforço pelo consenso, facilita a compreensão do gradiente de ocorrências que vai do muito simples e familiar,  ao muito complexo e de alta estranheza. A compreensão desse gradiente tende a anular o quebra-cabeças. Ele deixará de ser eterno e será apenas lembrado, como instrumento pedagógico, em determinada fase do aprendizado coletivo.

Notas

(i)  Lembrando que nesse momento nao havia internet tal como se tem hoje. Os arquivos do Grupo de Estudos Ufológicos da Universidade de Brasília. (GEU/NEFP/CEAM/UnB) constituiam-se de cartas, boletins e periódicos recebidos de colaboradores. Este texto foi produzido em 1992 e revisado a propósito desta publicação.

(ii) Simples – Quando se diz que algo é dotado de simplicidade significa que é de fácil compreensão ou composto por pouca ou nenhuma complexidade, ou seja, é descomplicado.

(iii) Familiar – Que goza do convívio ou da intimidade de alguém. / Conhecido, comum, vulgar: este assunto lhe é familiar

(iv) Considerando o advento da internet, que apenas se anunciava no Brasil, quando da primeira versão desse texto(1992), pode-se refletir atualmente (2018) quanto a suficiência da informação no processo de formação da opinião pública sobre o assunto.

(v) Classificação utilizada pelo Prof. J. Allen Hynek em (Hynek, J. Alen, THE UFO EXPERIENCE – A Scientifc Inquiry. London: Corgi edition published I974. Pg: 54, 74, 96…) (Onde os avistamentos a mais de 150 metros (500 pés) são classificados como “discos diurnos”, “luzes noturnas”, “informes visuais ou de radar”, etc. Os menores que essa distância são classificados em diferentes subtipos de encontros imediatos(Close Encounters). Hynek, e, posteriormente, outros autores, argumentam que encontros imediatos reais dão-se a essa distância aproximada como máxima, para reduzir e, em seguida, eliminar a possibilidade de confusão com uma aeronave convencional, ou um evento meteorológico (como uma nuvem incomum) ou siderais (como a queda de um meteoro ou estrela cadente).)

(vi) Cópias do relatório sobre o “Caso Papuda” poderão ser solicitada ao autor através do email wilson.nte@gmail.com 

 

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