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Governança Local – quando será?

O povo brasileiro tem levado a pior nas suas escolhas políticas. Raramente tem conseguido, que  os governo que escolheram nas urnas, voltem o olhar para as suas fragilidades.  Em grande parte, levam a pior por não acreditar na sua capacidade de produzir uma alternativa àquela que lhes “apresentam” o universo midiático. Os marqueteiros, nos fugazes momentos de eleições.

Como se alternativas políticas aceitáveis, legítimas, tivessem que ser unicamente baseadas, nesse estereótipo. Alguém que traz em si todos os atributos de um super herói, sabidamente, construído midiáticamente.

É preciso no mínimo questionar este estereótipo. Que além de ser um engodo, impede ao povo de sustentar os raros avanços alcançados aqui ou ali.

O povo é a alternativa e não alguém construído para atender a interesses escusos aos interesses desse mesmo povo. Assim também, não são alternativas, os coronéis da política, encastelados no status de manda chuva, adquirido ao longo de décadas de propaganda enganosa, mas que ainda funciona para os manter lá.

O povo em seus grupos locais, parecem no entanto, terem dificuldades para perceberem a si mesmos. Parecem ter dificuldades para  pensarem mais a longo prazo, com alternativas um pouquinho mais ousadas.

Alternativas vividas nas vizinhanças são alternativas fortes e sustentáveis no seu contexto. Mas o povo, raramente se olha e portanto mais raramente ainda se vê.

É tempo de olhar e ver as semelhanças e diferenças seculares e imediatas construídas em nossa sociedade e em nossos coletivos mais próximos. Olhar e ver que semelhanças, afinidades, podem gerar unidades e fortalecimentos. Que diferenças podem ter sido resultantes de séculos de opressão e aceitação de uma leitura equivocada das relações e posições sociais ocupadas por uns e outros.

Nas vizinhanças estão alternativas efetivas de governanças reais, de uma praxis, uma concretude e materialidades insuperáveis por qualquer outra. São aquelas alternativas bem vividas na luta diária. Aquelas que são de fato, afirmativas das identidades locais.

Governança de vizinhança é um conjunto de práticas, padrões assumidos por pessoas em comunidades, com o objetivo de garantir efetividade dos processos de organização social, política e económica em favor do próprio grupo social local. É a organização muitas vezes da luta pela sobrevivência mas também da luta pela ampliação da qualidade de vida.

Vale sugerir que se observem, que se olhem melhor, e vejam com mais acuidade. Vejam que são através das alternativas políticas, econômicas e sociais próximas que identificam soluções próprias, para problemas do cotidiano.

Com o olhar na própria realidade individual e coletiva, se evita pular etapas em um processo de consolidação das identidades. Destas, não podem abrir mão. A partir daí é que se constroem solidamente, caminhos e perspectivas para soluções mais abrangentes, de maior alcance. A partir dessa percepção quase natural, e não antes, que se possibilita a extrapolação do olhar, para além dos limites do bairro, da comunidade, da região.

Sem saber quem sou, caminho às cegas. Não vou a lugar nenhum.

É a partir do conhecimento/construção e/ou reconhecimento/reconstrução das identidades nos/com os locais onde vivem, que se vislumbram as possibilidades de alcançarem a autonomia dos grupos e comunidades.  Lembrando a célebre frase de Leon Tolstói  “canta tua aldeia e cantarás o mundo”.

Em todos os grupos humanos onde se amadurecem os olhares sobre si mesmos, concomitantemente ocorrem, autonomias e emancipações. Isso não impede que haja trocas e interações diversas, inclusive com agentes externos. Pelo contrário, o foco das relações com vistas a realizações conjuntas é condição primeira para se alcançar autonomia e afirmação de identidades coletivas locais.

Jamais quererão, as pessoas ou os grupos locais, novamente, repetirem os velhos erros, de procurarem ou aceitarem, super heróis ou vilões, externos, para os governar. E certamente saberão questionar e se protegerem das investidas desses parasitas sociais. Estes, nunca chegam pra somar, mas sim para subtrair, para sugar as energias do grupo.

As comunidades precisam não somente de um nome alternativo a representá-las em momentos eleitorais, ou em quaisquer outros momentos e circunstâncias. Precisam conhecer sua história e o seu modo de vida, os valores nos quais baseiam para viver. Isso é construído cotidianamente. É um modo de vida que resulte no conhecimento de si, indivíduos e comunidade. É principalmente como os indivíduos e comunidades se vêem. É a sua narrativa.

Não é qualquer modo de vida. É um modo de vida pensado coletivamente com o conhecimento de causalidade. Conhecimento de sua história, seja para não repetir os erros do passado, seja para, conhecendo sua influência no presente, definir estratégias para o futuro. Sempre no sentido afirmativo.

Respeitar o passado histórico não é repetí-lo. Mas conhecê-lo facilita gerenciar o presente em favor de uma vida saudável para todos. O senso de autopreservação e solidariedade de grupo  não se desenvolve nos indivíduos e coletividades sem uma narrativa sobre si mesmos que os une e fortaleça.

Em outras palavras, o auto governo ou governança local é o governo das próprias vidas humanas, em contextos sócios organizativos menores, compartilhados, democratizados ao máximo. Isso, tanto depende dessa narrativa quanto a alimentará e a reconstruirá permanentemente.

Essa, bem poderia ser uma forma de questionar essa dependência, de governos midiatizados, que recorrentemente são apresentados heróis hoje e vilões amanhã. Governos fakes.

Somos mais. (…)

Wilson Oliveira.