OVNI – termo ou conceito

Para o filósofo Deleuze, “Todo conceito remete a um problema…”, e com certeza podemos dizer isso também do termo OVNI¹. Mas, embora ele remeta a um problema ele não pode ser entendido como um conceito, ele não passa de um conjunto de palavras sem sentido.

“Todo conceito remete a um problema, a problemas sem os quais não teria sentido, e que só podem ser isolados ou compreendidos na medida de sua solução”² (Deleuze e Guattari).

O termo OVNI, está na antesala de um conceito. Mas não consegue ou não pode adentrar ao recinto principal. Ele não soluciona um problema, ele não contém vitalidade suficiente para ser entendido como um conceito, se assim o fosse superaria obstáculos.

Ao pensar o termo OVNI caimos no vazio, numa indefinição. Não avançamos o pensamento no sentido de compreender os acontecimentos aos quais ele se refere.

O termo foi criado para dar conta de uma realidade determinada: um objeto, que voa, que é visto, que tem seus movimentos testemunhados por olhares e registrados pelas tecnologias de detecção objetivas disponíveis nas imediações e na hora dos acontecimentos de então. Também se percebe os rastros, os vestígios do acontecimento.

No entanto, estes elementos de realidade registrados, não são suficientes, porque o objeto, tanto quanto suas ações, não são permanentes. E a permanência é vital. Sem permanência não há vida.

Há que ter permanência, obviamente, no tempo e no espaço, para se constituir num problema. Só a partir daí o conceito se completa. Até lá o conceito será apenas um amontoado de palavras e não fazem sentido no seu conjunto. Só a partir dessa permanência o acontecimento alcança vida suficiente.

Com vida suficiente o conceito se apresenta como solução a um problema, porque o conceito é a vida que procura dar conta de si mesma, num determinado contexto, superando obstáculos ao entendimento através do pensamento.

Os termos associados à sigla OVNI apontam nos, uma incompletude no entendimento de uma categoria de acontecimentos, que vai exigir do ato filosófico uma reconceitualização contínua. Uma releitura de fatos que não estão mais, tanto quanto se desejaria, no mundo dos sentidos. Talvez estejamos a velar por uma outra realidade nesse repensar, será?

Por outro lado, ainda que seja uma sigla aparentemente vazia, a partir do momento em que foi concebida, ela se tornou prenhe de alguma vitalidade e não tem havido redução, desde então. Transformação sim, metamorfose, mas jamais uma redução.

Desde que existiu em parte, tem sido uma parte causal, a coisa, o acontecimento. À medida que um acontecimento semelhante casualmente se repete, o termo se atualiza procurando escapar-se da estagnação em que nasceu, em busca de um devir? Tanto quanto o conceito, iniciou-se, nessa forma embrionária, a gestação da vida em si mesma.

Talvez possamos dizer como Drumond que,

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Até que a pedra deixe de ser insignificante, embora desde sempre intrigante, precisa, se torne um problema. A própria vida, antes inconcebível, passe a ser em nova forma, questões e problemas a se resolverem.

¹ – OVNI – Objeto Voador Não Identificado
² – Com o perdão de Deleuse e Guattari, para minhas brincadeiras.

Referencia:
Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 25
Carlos Drummond de Andrade. In Alguma Poesia, 1930