Arquivo da categoria: Política

Reflexões sobre política

CURSO LIVRE “O GOLPE DE 2016 E A EDUCAÇÃO NO BRASIL”

CURSO LIVRE “O GOLPE DE 2016 E A EDUCAÇÃO NO BRASIL”

Transmissão ao vivo todas as quintas-feiras das 17h às 19h pelo Coletivo Socializando Saberes:  http://tv.socializandosaberes.net.br/

PROGRAMAÇÃO

Ementa

O curso inspira-se em disciplina oferecida na Universidade de Brasília pelos docentes Luis Felipe Miguel e Karina Damous Duailibe, reconhecendo a importância desta iniciativa. Contrários às iniciativas em andamento de liquidar com a autonomia universitária e a liberdade de pesquisa e ensino crítico na universidade, o curso tem por objetivo analisar o contexto histórico do golpe de Estado no Brasil, entendido como mecanismo de manutenção e controle do Estado pela elite dominante, focando particularmente no Golpe de 2016 e seus desdobramentos no processo de sucateamento da educação estatal (pública) brasileira.
Programação

15 de março
Aula de Abertura “A crise política no Brasil, o golpe e o papel da educação na resistência e na transformação”
Convidado: Dermeval Saviani
Local: Salão Nobre, 1º andar, bloco E

22 de março
Os golpes de Estado no Brasil República e a educação
Convidado: José Claudinei Lombardi

05 de abril
O Golpe de 2016 e a cultura: relações raciais e de gênero
Convidada: Ângela Soligo

12 de abril
O Golpe no Brasil e a reorganização imperialista em tempo de globalização
Convidado: Barnabé Medeiros Filho

19 de abril
O golpe de 2016 e o contrafluxo de uma governamentalidade democrática
Convidado: Silvio Gallo
Os Golpes de 1964 e 2016 e o Estado Democrático (ou pós-democrático?)
Convidadas: Débora Mazza e Nima I. Spigolon

26 de abril
A Reforma da Previdência e Trabalhista: o que Temer tem a ver com isso? Como afeta o trabalho docente? Convidados: Roberto Heloani e Evaldo Piolli.

03 de maio
Contrarrevolução e privatismo na educação brasileira: uma análise a partir de 1964
Convidada: Fabiana Cassia Rodrigues

10 de maio
Como fica o Ensino Fundamental e Médio com mais um Golpe Conservador no Brasil?
Convidados: Nora Krawczyk, Dirze Zan e Antonio José Lopes

17 de maio
Educação infantil em risco: quédê o direito que estava aqui? O Temer comeu!
Convidada: Ana Lúcia Goulart de Faria

24 de maio
O Golpe e a gestão democrática das escola
Convidadas: Cristiane Machado e Mara Regina Jacomeli

07 de junho
Educação, desenvolvimento e segurança nacional: o golpe de 1964 e 2016 e as reformas educacionais no Brasil
Convidado: Renê José Trentim

14 de junho
“A construção ideológica e jurídica do Golpe”
Antonio Miguel; Carlos Roberto Vianna (Professor do Departamento de Matemática da Universiade Federal do Paraná); Magda Barros Biavaschi (Juíza do Trabalho e pesquisadora do CESIT – Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho)

21 de junho
Documentário “O Processo” seguido de debate
Convite para a diretora do documentáriom, Maria Augusta Ramos

28 de junho
Aula de Encerramento “Com o golpe de 2016, para onde caminhará a educação?”
José Luís Sanfelice

Mais informações: http://www.fe.unicamp.br

Governança Local – quando será?

O povo brasileiro tem levado a pior nas suas escolhas políticas. Raramente tem conseguido, que  os governo que escolheram nas urnas, voltem o olhar para as suas fragilidades.  Em grande parte, levam a pior por não acreditar na sua capacidade de produzir uma alternativa àquela que lhes “apresentam” o universo midiático. Os marqueteiros, nos fugazes momentos de eleições.

Como se alternativas políticas aceitáveis, legítimas, tivessem que ser unicamente baseadas, nesse estereótipo. Alguém que traz em si todos os atributos de um super herói, sabidamente, construído midiáticamente.

É preciso no mínimo questionar este estereótipo. Que além de ser um engodo, impede ao povo de sustentar os raros avanços alcançados aqui ou ali.

O povo é a alternativa e não alguém construído para atender a interesses escusos aos interesses desse mesmo povo. Assim também, não são alternativas, os coronéis da política, encastelados no status de manda chuva, adquirido ao longo de décadas de propaganda enganosa, mas que ainda funciona para os manter lá.

O povo em seus grupos locais, parecem no entanto, terem dificuldades para perceberem a si mesmos. Parecem ter dificuldades para  pensarem mais a longo prazo, com alternativas um pouquinho mais ousadas.

Alternativas vividas nas vizinhanças são alternativas fortes e sustentáveis no seu contexto. Mas o povo, raramente se olha e portanto mais raramente ainda se vê.

É tempo de olhar e ver as semelhanças e diferenças seculares e imediatas construídas em nossa sociedade e em nossos coletivos mais próximos. Olhar e ver que semelhanças, afinidades, podem gerar unidades e fortalecimentos. Que diferenças podem ter sido resultantes de séculos de opressão e aceitação de uma leitura equivocada das relações e posições sociais ocupadas por uns e outros.

Nas vizinhanças estão alternativas efetivas de governanças reais, de uma praxis, uma concretude e materialidades insuperáveis por qualquer outra. São aquelas alternativas bem vividas na luta diária. Aquelas que são de fato, afirmativas das identidades locais.

Governança de vizinhança é um conjunto de práticas, padrões assumidos por pessoas em comunidades, com o objetivo de garantir efetividade dos processos de organização social, política e económica em favor do próprio grupo social local. É a organização muitas vezes da luta pela sobrevivência mas também da luta pela ampliação da qualidade de vida.

Vale sugerir que se observem, que se olhem melhor, e vejam com mais acuidade. Vejam que são através das alternativas políticas, econômicas e sociais próximas que identificam soluções próprias, para problemas do cotidiano.

Com o olhar na própria realidade individual e coletiva, se evita pular etapas em um processo de consolidação das identidades. Destas, não podem abrir mão. A partir daí é que se constroem solidamente, caminhos e perspectivas para soluções mais abrangentes, de maior alcance. A partir dessa percepção quase natural, e não antes, que se possibilita a extrapolação do olhar, para além dos limites do bairro, da comunidade, da região.

Sem saber quem sou, caminho às cegas. Não vou a lugar nenhum.

É a partir do conhecimento/construção e/ou reconhecimento/reconstrução das identidades nos/com os locais onde vivem, que se vislumbram as possibilidades de alcançarem a autonomia dos grupos e comunidades.  Lembrando a célebre frase de Leon Tolstói  “canta tua aldeia e cantarás o mundo”.

Em todos os grupos humanos onde se amadurecem os olhares sobre si mesmos, concomitantemente ocorrem, autonomias e emancipações. Isso não impede que haja trocas e interações diversas, inclusive com agentes externos. Pelo contrário, o foco das relações com vistas a realizações conjuntas é condição primeira para se alcançar autonomia e afirmação de identidades coletivas locais.

Jamais quererão, as pessoas ou os grupos locais, novamente, repetirem os velhos erros, de procurarem ou aceitarem, super heróis ou vilões, externos, para os governar. E certamente saberão questionar e se protegerem das investidas desses parasitas sociais. Estes, nunca chegam pra somar, mas sim para subtrair, para sugar as energias do grupo.

As comunidades precisam não somente de um nome alternativo a representá-las em momentos eleitorais, ou em quaisquer outros momentos e circunstâncias. Precisam conhecer sua história e o seu modo de vida, os valores nos quais baseiam para viver. Isso é construído cotidianamente. É um modo de vida que resulte no conhecimento de si, indivíduos e comunidade. É principalmente como os indivíduos e comunidades se vêem. É a sua narrativa.

Não é qualquer modo de vida. É um modo de vida pensado coletivamente com o conhecimento de causalidade. Conhecimento de sua história, seja para não repetir os erros do passado, seja para, conhecendo sua influência no presente, definir estratégias para o futuro. Sempre no sentido afirmativo.

Respeitar o passado histórico não é repetí-lo. Mas conhecê-lo facilita gerenciar o presente em favor de uma vida saudável para todos. O senso de autopreservação e solidariedade de grupo  não se desenvolve nos indivíduos e coletividades sem uma narrativa sobre si mesmos que os une e fortaleça.

Em outras palavras, o auto governo ou governança local é o governo das próprias vidas humanas, em contextos sócios organizativos menores, compartilhados, democratizados ao máximo. Isso, tanto depende dessa narrativa quanto a alimentará e a reconstruirá permanentemente.

Essa, bem poderia ser uma forma de questionar essa dependência, de governos midiatizados, que recorrentemente são apresentados heróis hoje e vilões amanhã. Governos fakes.

Somos mais. (…)

Wilson Oliveira.

Bolívia – a luta continua

A situação da Bolivia é também antiga. Desde a resistência às múltiplas tentativas de exploração levadas a cabo por interesses estrangeiros nas riquezas do país: petróleo, gás natural, prata, estanho, nitrato, que levou, como diz o Prof. Dr. Eugênio Rezende, a um contínuo processo de pilhagem dos recursos naturais da nação, provocando, desde a independência boliviana em 1825, a deflagração de inúmeras guerras e disputas territoriais com países vizinhos. Tais conflitos foram incentivados quase sempre por interesses econômicos imperiais e multinacionais e ao final resultaram na perda pela Bolívia de partes significativas de seu território – para não dizer da própria auto-estima nacional – e de sua única conexão com o mar, com drásticas conseqüências para o futuro da sua economia.”1

Desde 1544 a Bolívia vive conflitos diversos e no meio deles sempre as suas enormes riquezas naturais e suas dificuldades geopolíticas para a exploração em favor da nação. Seu povo constituído de grande diversidade étnica, herdeira de duas culturas milenárias – os tiahuanacotas (aymarás) e os incas (quechuas) sempre foi explorado como escravos, ou mão de obra barata pra enriquecimento da coroa espanhola e de toda a Europa que consumia suas riquezas.

Hoje a questão da Bolívia continua sendo a questão da soberania da América latina, refletindo-se nos conflitos internos a cada nação que dela faz parte.

Cuba representou e representa um bastião da resistência pós libertação da coroa espanhola. Segue-se a Venezuela que luta para preservar sua soberania e suas riquezas contra os imperialistas, nossos irmãos do norte.

Muitos países latinos sofreram e sofrem ataques de mesmo nível, origem e motivação. Como a Bolívia, Chile, Equador, Argentina e Brasil. É por isso, uma luta antiga e atual ao mesmo tempo.

Para tentar ir mais direto ao ponto, quanto as missões religiosas evangélicas e católicas, que tem provocado tanto a preocupação de muitos de seus seguidores, existe um viés que é preciso considerar. A meu ver, os latinos ainda são vistos como índios no sentido pejorativo, como se fossem primitivos. Esse tem sido um pensamento comum de outros países chamados de primeiro mundo, em relação aos países da América latina, especialmente os de língua hispânica. Emboras o Brasil não escape de classificação e disposição tão ou mais grave em razão dos mitos construídos em torno da idéia de “raça”.
Por outro lado, a carência de organizações democráticas, o avanço das tecnologias e a necessidade de acompanhar o desenvolvimento, a modernização e ao mesmo tempo preservar suas culturas sugere uma explicação para as dificuldades locais que se manifestam nas lutas históricas e atuais, sempre evidenciando interesses conflitantes no jogo politico e econômico.

Lá como cá, o judiciário entra em cena. Os poderes constituídos estão sendo questionados.

Nada é de repente e nem por acaso. A meu ver temos que aguardar os acontecimentos e certamente cada povo vai resolvendo seus problemas domésticos na sua luta diária e se alinhando a outros horizontes conforme o futuro que escolherem. Esse é o tempo desses acontecimentos.

Temos que respeitar as decisões e escolhas de cada povo. Afinal temos as nossas decisões a tomar também.

Algo que precisamos questionar é o nosso comportamento proselitista. Acreditamos que nossa fé cristã deve ser levada aos outros países e povos. Não percebemos que esta é uma postura colonialista e resulta de nosso etnocentrismo arraigado. Uma herança da “supremacia branca” européia.
Em vez disso, se não podemos ser solidários, não deveríamos, ao menos respeitar o modo de vida, as lutas e as crenças dos outros povos? Poderíamos até fazer conclaves para mostrar nossos modelos de compreensão do mundo numa perspectiva religiosa também, mas só entraríamos nos países com total respeito ao seu modo de vida e às religiões nativas. E não para convertê-los .

Os acontecimentos na Bolívia acerca do seu novo código penal estão em curso.
A sociedade está se manifestando à sua maneira, como pode ver nos links abaixo e tudo indica que poderá haver uma medida revogatória.

Será uma medida preventiva, pra proteger o país dos parasitas estrangeiros? Evo Morales deverá recuar, em parte, mas pautando os limites que evitarão que o país tenha prejuízos com sua soberania.

Entendo que ele tenha se excedido, ainda que se justifique como medida estratégica. O importante é que o povo mantenha acesa a chama da luta por democracia e digam como querem as suas leis e como querem o seu governo. E não abram mão de participar sempre das decisões de conteúdo interno.

Aqui ainda estamos dormindo e enquanto isso, os abutres dividem o país com as raposas e hienas estrangeiras.

Links sobre a situação na Bolívia.

https://www.cartacapital.com.br/internacional/imprensa-boliviana-e-levada-a-justica-pelo-governo

Notícias recentes:
http://www.eldeber.com.bo/bolivia/Paro-en-Cochabamba-anima-a-nuevas-protestas-civicas-20180116-0105.html

http://www.eldeber.com.bo/bolivia/Se-suspende-ampliado-de-la–COB-entre-gritos-de-congreso-y-abrogacion-20180117-0041.html

http://www.eldeber.com.bo/seccion/multimedia//bolivia/Juran-en-La-Paz-nuevos-jefes-departamentales-de-la-Policia-Boliviana-20180116-0069.html

http://www.eldeber.com.bo/bolivia/Ultimatum-civico-para-que-Evo-abrogue-el-codigo-y-no-se-repostule-en-2019-20180117-0058.html

https://www.eldia.com.bo/ – Diário El Dia Bolívia – online

http://elmundo.com.bo/web2/index.php/noticias/index?id=ministro-de-educacion-plantea-la-lectura-comprensiva-del-codigo-penal – EL MUNDO

Wilson Geraldo de Oliveira.

Privada ou Pública?

“A privada é mítica. Mito fundado nos dogmas da religião do consumo, superficialidade e individualismo, propagado pelas missas da publicidade. Se não desenvolvermos uma reflexão coletiva e questionadora como escudo à propaganda dos nossos doutrinadores, nosso país, de incontáveis riquezas, será sempre loteado pelas grandes corporações, aliadas da “nossa” elite econômica e política entreguista que copula com a grande mídia privada.”

Vale muito o registro da conclusão e a leitura do artigo do Dr. Silvio Jose Piovani Junior, Pós-Graduado em Direito do Consumidor e Pós-Graduando em Direito Civil, ambas pela EPM – Escola Paulista da Magistratura. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Sorocaba/SP.  (O que nos faz acreditar que a iniciativa privada é melhor que a pública?)

Conversa com Boaventura de Sousa Santos

Autor de “A Difícil Democracia: reinventar as esquerdas”, o português Boaventura de Sousa Santos é hoje um dos mais importantes pensadores da Europa, mas que analisa com agudeza a situação política da América Latina e em especial do Brasil. Ele tem trabalhos publicados sobre globalização, sociologia do direito, epistemologia, democracia e direitos humanos.

Publicado originalmente no site da TV Câmara 

Política e democracia nas redes sociais

O marketing sincrônico e a intolerância política nas redes sociais

Está nas redes sociais, sites e blogs que têm uma linha política ideológica definida, e muito especialmente nos comentários dos leitores. Estes, fazem explícita e intensa defesa de suas posições políticas e ataque ideológico aos seus opositores. Salientam, por um lado as divergências e por outro, evidenciam conflitos.

No atual momento político do Brasil (2014 à 2016) as divergências e conflitos ficaram mais evidentes? Observa-se nos posicionamentos de direita, p.ex. que os mesmos criam e compartilham os jargões de atribuição de culpa ao PT e Lula apesar da inexistência de sentença definitiva contra Lula. Nas publicações e em muitos comentários, denúncias e processos investigativos em curso, se tornam imediatas condenações.

A maioria dos outros 34 partidos, senão todos, também sob suspeitas, com claro envolvimento em corrupções, com denúncias graves e diversas, são citados em segundo plano, quando o são. Aparecem como quem somente acompanhou, foi na onda. Se beneficiaram, mas não estavam no comando do país. São vistos assim com menos culpa ou menos comprometimento nos processos de corrupção. O comando do país, nesse caso, é visto como equivalente ao comando de toda corrupção que se “instalou” (instalou?) no país.

Ou seja, é preciso manter a linha de acusação, ainda que falaciosa, mas que deve ser veiculada com ares de verdade absoluta, contra o alvo principal. Lula e Dilma, juntamente com o PT, os “vilões” dessa história nefasta.

A estratégia de marketing é usar recortes sincrônicos. São mais simples para o domínio de massas. E precisam ser o mais conclusivos possível, por isso,  a produção textual trás as palavras chaves: Lula, Dilma e PT acompanhadas dos piores adjetivos, os quais os rotulam, no mínimo, como ladrões e corruptos.

Seguindo o modelo midiático dominante, evitam a complexa diacronia dos processos sociais. A partir da qual poder-se-ia evidenciar o histórico de corrupção que sempre assolou o país. Histórico este, evidenciado nos governos Lula e Dilma graças a um pouco mais de democracia, liberdade, tecnologias de informação, incentivos institucionais aos organismos judiciários, Ministério Público Federal e Polícia Federal.

Além de haver um excesso explícito nas afirmações falaciosas, permeiam os comentários dos usuários, xingamentos e palavras de baixíssimo nível. Palavras agressivas, grotescas e caluniosas. Não desejáveis aos piores inimigos. Utilizam-se desse recorte síncrônico, talvez por dificuldades de racionalizar as situações, ou não se interessarem por isso. Pessoas  se irritam facilmente e se revelam em completo descontrole emocional, manifestando-se como tal.

Estas posturas irracionais, repetitivas, revelam pessoas intolerantes, autoritárias, ante democráticas,  características estas,  xenofóbicas e fascistas.

Tem sido comum observar pessoas sendo excluídas das redes sociais por mostrarem posicionamento diverso. A intolerância fica evidente apontando uma crescente dificuldade de convivência. Embora isso demonstre a fragilidade das relações de amizade nas redes sociais via internet, em muitos casos pessoas que antes se consideravam amigos, inclusive com laços de parentesco, se tornam inimigos declarados. Será em função da falta de preparo para o debate político?

Se não se pode aceitar a liberdade de expressão do outro, portando-se de forma intolerante com o diferente e ao se expressar não o faz com o devido respeito pela humanidade do outro, será capaz de defender um governo diferente disso? Creio que não. Não se estranhará  posturas autoritárias, desrespeitosas, desumanas porque esse será  um comportamento familiar.

Dominação e subserviência política

Outra postura elitista e nociva à identidade nacional é o valor excessivo que se dá ao que vem dos EUA ou de outros países ditos desenvolvidos, em detrimento do que é produzido ou natural do Brasil. À crença de que por vir de um país desenvolvido ou por ser dos EUA é melhor. Com esse pensamento, o que é nosso passa a ser depreciado.

Esse comportamento não é novo, exemplo disso é o jargão “tupiniquin” frequentemente usado como termo depreciativo das coisas brasileiras, em vez de ser um termo que valoriza a identidade nacional. Afinal, é um termo que vem dos ancestrais habitantes dessa terra, a nação Tupi. Entretanto, usado desde os tempos da colônia como forma de valorizar a cultura européia da época em detrimento da nossa cultura ou da cultura local. Mais  recentemente várias publicações  lembram a idéia propagada por autoridades americanas de que a América  Latina é quintal dos EUA.

A supervalorização da cultura americana ou estrangeira em detrimento da própria cultura brasileira acontece muitas vezes, hoje, como resultado de uma imposição midiática subliminar, presente ou revelada em discursos explícitos da cultura que se quer dominante. Na mídia americana, também,  não tão recentemente, encontrou-se, por exemplo, afirmações infundadas acerca da internacionalização da amazônia, como se não tivéssemos soberania sobre nosso território.

O colonialismo ou a dominação, começa pela propagação/imposição da ideia de superioridade do pretenso dominante. Mas também de sua aceitação por parte do suposto dominado. No caso americano essa ideia oportunizou a um político brasileiro em debate no ano 2000 numa Universidade daquele país dizer o que ele pensava sobre a internacionalização da Amazônia. 

Veja o vídeo que repercutiu  o fato.

O resultado desse sentimento de superioridade em relação ao outro, por parte de nações belicistas, já rendeu à humanidade  experiências indesejáveis. E os EUA tem colecionado resultados extremamente desagradáveis, mundo afora, devido à sua política intervencionista. O costume de se pensar como uma nação superior às demais, tem levado o país ao controle de mecanismos de “legitimação internacional” para sua política intervencionista e expansionista. Não tem sido nenhum exemplo humanitário, de respeito às culturas, à soberania dos povos, respeito ao que é diferente. Pelo contrário, é uma guerra após a outra, fundamentadas em posturas etnocentricas.

E o Brasil, com essa mentalidade subserviente, além de ser dilapidado pelas vorazes empresas e conglomerados capitalistas americanos e internacionais ou estrangeiras de modo geral, pode achar que está tudo certo. Corre portanto, sérios riscos de prejuízos maiores ainda. Prejuízos  da soberania e da dignidade humana. Não se pode esquecer que historicamente, momentos de turbulência política em diversas regiões, atraíram os oportunistas estrangeiros apresentando “soluções fáceis”. E os conflitos internos fragilizam a nação como um todo impedindo-a de ver o seu real valor, resolver seus conflitos internos e se posicionar melhor.

A dominação só acontece quando o dominado se vê submisso e aceita essa condição frente ao dominador. Quando fragilizados o espírito de nacionalidade, quando fragilizada a identidade de um povo ou a forma como o povo se pensa e se vê, qualquer proposta estrangeira passa a ser uma tábua de salvação. Mas, além disso, a propaganda de afirmação do pretenso colonizador passa a ser tal, que aquele, em vias de ser dominado, aceita de bom grado a dominação, chegando à gratidão. Portanto, incapaz de perceber que tudo foi planejado, assume a cultura do outro desprezando a própria.

Ou seja, internamente, o povo brasileiro, cada cidadão, não percebendo o valor político que tem, não reage. Não percebendo o valor de sua cultura, de suas riquezas, de sua gente, de sua nação, acredita-se inferior, fica desmotivado ou se sente preguiçoso de pensar tais assuntos. Nessa condição, está fragilizado, vencido, bem ao gosto daquele que pretende dominá-lo. Nessa condição ele facilita o processo de dominação.

De lamparina a querosene à holofote

Embora tenha havido protestos recentes, também há o pensamento fatalista de que nada poderá fazer diante da situação atual. Assim, muitos permanecem inertes. Muitos sofrem mas se mantêm calados. Muitas vezes frustrados, decepcionados. Enquanto isso, os chamados “agentes do golpe”, oportunistas, traidores da nação, trabalham diuturnamente promovendo a pilhagem e facilitando a dominação da nação por agentes externos.

O sentido de nacionalidade, de identidade, de povo, é tão importante para um país que os próprios políticos estão sempre falando em nome do povo. Porquê? Façam a merda que fizerem sempre voltam com o mesmo discurso empolado. É porque confiam na capacidade de dominação das massas com a posição que alcançou. Com as alianças que fizeram, etc.. Mas é também, porque o povo fragilizado, incapaz de acreditar em si mesmo, incapaz de criticar o texto midiático cotidiano, se deixa convencer por outro, que ele acredita ser melhor que ele, mais iluminado.

Não sei se é uma boa analogia, mas, eles, os políticos, julgam que saíram da condição de lamparinas a querosene para a condição de holofotes por conta própria. Acham que podem ofuscar aqueles que se vêem com luz humilde, luz de lamparina. Se esquecem de que foi com a luz do voto popular (luz de lamparina) que eles podem se pensar como holofote. Como uma luz maior que eles tiram do povo. É muito importante uma discussão mais profunda acerca do atual sistema de representação política.

O segredo está em acreditar na luz que possui. Uma luz de lamparina também pode se transformar em um grande e pavoroso incêndio, ou numa linda fogueira. Acreditar em si mesmo, enquanto ser humano, e enquanto grupo, sociedade, desenvolver solidariedades para viver em equilíbrio. Eliminar as disparidades e injustiças, sem esquecer que a luz do povo brasileiro está na sua imensa diversidade cultural, que precisa ser aceita, assumida e valorizada.

Por um princípio norteador

Deve haver mais de uma forma de reconhecer, de visualizar o lugar ideológico de quem fala. Uma delas é por comparação, se esforçar por conhecer a realidade possível. É preciso ter algumas ferramentas que funcionem como princípios norteadores.

Por exemplo: (e são somente exemplos)
1) conhecer o sentido da democracia participativa e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
2) conhecer sobre o verdadeiro sentido da paz e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
3) conhecer sobre o verdadeiro sentido do respeito à diversidade e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
4) conhecer o sentido da solidariedade e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
5) conhecer o verdadeiro sentido da liberdade e ser capaz de fazer dele uma bandeira de luta?

Em todos e quaisquer outros casos, conhecer a realidade que nos cerca, procurar as ferramentas adequadas e sempre com vistas a uma sociedade justa e progressista. Sem a exploração do outro. Sem dominar o semelhante e sem dominar o diferente. Dialogar e negociar, ainda que em função dessas diferenças, naturais ou não. Sempre no sentido de manter a unidade humana. A humanidade de nossas gentes, sejam elas vistas como grupos, comunidades,  estados nações ou como civilização planetária.

Wilson Geraldo de Oliveira