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dez 23

Política e democracia nas redes sociais

O marketing sincrônico e a intolerância política nas redes sociais

Está nas redes sociais, sites e blogs que têm uma linha política ideológica definida, e muito especialmente nos comentários dos leitores. Estes, fazem explícita e intensa defesa de suas posições políticas e ataque ideológico aos seus opositores. Salientam, por um lado as divergências e por outro, evidenciam conflitos.

No atual momento político do Brasil (2014 à 2016) as divergências e conflitos ficaram mais evidentes? Observa-se nos posicionamentos de direita, p.ex. que os mesmos criam e compartilham os jargões de atribuição de culpa ao PT e Lula apesar da inexistência de sentença definitiva contra Lula. Nas publicações e em muitos comentários, denúncias e processos investigativos em curso, se tornam imediatas condenações.

A maioria dos outros 34 partidos, senão todos, também sob suspeitas, com claro envolvimento em corrupções, com denúncias graves e diversas, são citados em segundo plano, quando o são. Aparecem como quem somente acompanhou, foi na onda. Se beneficiaram, mas não estavam no comando do país. São vistos assim com menos culpa ou menos comprometimento nos processos de corrupção. O comando do país, nesse caso, é visto como equivalente ao comando de toda corrupção que se “instalou” (instalou?) no país.

Ou seja, é preciso manter a linha de acusação, ainda que falaciosa, mas que deve ser veiculada com ares de verdade absoluta, contra o alvo principal. Lula e Dilma, juntamente com o PT, os “vilões” dessa história nefasta.

A estratégia de marketing é usar recortes sincrônicos. São mais simples para o domínio de massas. E precisam ser o mais conclusivos possível, por isso,  a produção textual trás as palavras chaves: Lula, Dilma e PT acompanhadas dos piores adjetivos, os quais os rotulam, no mínimo, como ladrões e corruptos.

Seguindo o modelo midiático dominante, evitam a complexa diacronia dos processos sociais. A partir da qual poder-se-ia evidenciar o histórico de corrupção que sempre assolou o país. Histórico este, evidenciado nos governos Lula e Dilma graças a um pouco mais de democracia, liberdade, tecnologias de informação, incentivos institucionais aos organismos judiciários, Ministério Público Federal e Polícia Federal.

Além de haver um excesso explícito nas afirmações falaciosas, permeiam os comentários dos usuários, xingamentos e palavras de baixíssimo nível. Palavras agressivas, grotescas e caluniosas. Não desejáveis aos piores inimigos. Utilizam-se desse recorte síncrônico, talvez por dificuldades de racionalizar as situações, ou não se interessarem por isso. Pessoas  se irritam facilmente e se revelam em completo descontrole emocional, manifestando-se como tal.

Estas posturas irracionais, repetitivas, revelam pessoas intolerantes, autoritárias, ante democráticas,  características estas,  xenofóbicas e fascistas.

Tem sido comum observar pessoas sendo excluídas das redes sociais por mostrarem posicionamento diverso. A intolerância fica evidente apontando uma crescente dificuldade de convivência. Embora isso demonstre a fragilidade das relações de amizade nas redes sociais via internet, em muitos casos pessoas que antes se consideravam amigos, inclusive com laços de parentesco, se tornam inimigos declarados. Será em função da falta de preparo para o debate político?

Se não se pode aceitar a liberdade de expressão do outro, portando-se de forma intolerante com o diferente e ao se expressar não o faz com o devido respeito pela humanidade do outro, será capaz de defender um governo diferente disso? Creio que não. Não se estranhará  posturas autoritárias, desrespeitosas, desumanas porque esse será  um comportamento familiar.

Dominação e subserviência política

Outra postura elitista e nociva à identidade nacional é o valor excessivo que se dá ao que vem dos EUA ou de outros países ditos desenvolvidos, em detrimento do que é produzido ou natural do Brasil. À crença de que por vir de um país desenvolvido ou por ser dos EUA é melhor. Com esse pensamento, o que é nosso passa a ser depreciado.

Esse comportamento não é novo, exemplo disso é o jargão “tupiniquin” frequentemente usado como termo depreciativo das coisas brasileiras, em vez de ser um termo que valoriza a identidade nacional. Afinal, é um termo que vem dos ancestrais habitantes dessa terra, a nação Tupi. Entretanto, usado desde os tempos da colônia como forma de valorizar a cultura européia da época em detrimento da nossa cultura ou da cultura local. Mais  recentemente várias publicações  lembram a idéia propagada por autoridades americanas de que a América  Latina é quintal dos EUA.

A supervalorização da cultura americana ou estrangeira em detrimento da própria cultura brasileira acontece muitas vezes, hoje, como resultado de uma imposição midiática subliminar, presente ou revelada em discursos explícitos da cultura que se quer dominante. Na mídia americana, também,  não tão recentemente, encontrou-se, por exemplo, afirmações infundadas acerca da internacionalização da amazônia, como se não tivéssemos soberania sobre nosso território.

O colonialismo ou a dominação, começa pela propagação/imposição da ideia de superioridade do pretenso dominante. Mas também de sua aceitação por parte do suposto dominado. No caso americano essa ideia oportunizou a um político brasileiro em debate no ano 2000 numa Universidade daquele país dizer o que ele pensava sobre a internacionalização da Amazônia. 

Veja o vídeo que repercutiu  o fato.

O resultado desse sentimento de superioridade em relação ao outro, por parte de nações belicistas, já rendeu à humanidade  experiências indesejáveis. E os EUA tem colecionado resultados extremamente desagradáveis, mundo afora, devido à sua política intervencionista. O costume de se pensar como uma nação superior às demais, tem levado o país ao controle de mecanismos de “legitimação internacional” para sua política intervencionista e expansionista. Não tem sido nenhum exemplo humanitário, de respeito às culturas, à soberania dos povos, respeito ao que é diferente. Pelo contrário, é uma guerra após a outra, fundamentadas em posturas etnocentricas.

E o Brasil, com essa mentalidade subserviente, além de ser dilapidado pelas vorazes empresas e conglomerados capitalistas americanos e internacionais ou estrangeiras de modo geral, pode achar que está tudo certo. Corre portanto, sérios riscos de prejuízos maiores ainda. Prejuízos  da soberania e da dignidade humana. Não se pode esquecer que historicamente, momentos de turbulência política em diversas regiões, atraíram os oportunistas estrangeiros apresentando “soluções fáceis”. E os conflitos internos fragilizam a nação como um todo impedindo-a de ver o seu real valor, resolver seus conflitos internos e se posicionar melhor.

A dominação só acontece quando o dominado se vê submisso e aceita essa condição frente ao dominador. Quando fragilizados o espírito de nacionalidade, quando fragilizada a identidade de um povo ou a forma como o povo se pensa e se vê, qualquer proposta estrangeira passa a ser uma tábua de salvação. Mas, além disso, a propaganda de afirmação do pretenso colonizador passa a ser tal, que aquele, em vias de ser dominado, aceita de bom grado a dominação, chegando à gratidão. Portanto, incapaz de perceber que tudo foi planejado, assume a cultura do outro desprezando a própria.

Ou seja, internamente, o povo brasileiro, cada cidadão, não percebendo o valor político que tem, não reage. Não percebendo o valor de sua cultura, de suas riquezas, de sua gente, de sua nação, acredita-se inferior, fica desmotivado ou se sente preguiçoso de pensar tais assuntos. Nessa condição, está fragilizado, vencido, bem ao gosto daquele que pretende dominá-lo. Nessa condição ele facilita o processo de dominação.

De lamparina a querosene à holofote

Embora tenha havido protestos recentes, também há o pensamento fatalista de que nada poderá fazer diante da situação atual. Assim, muitos permanecem inertes. Muitos sofrem mas se mantêm calados. Muitas vezes frustrados, decepcionados. Enquanto isso, os chamados “agentes do golpe”, oportunistas, traidores da nação, trabalham diuturnamente promovendo a pilhagem e facilitando a dominação da nação por agentes externos.

O sentido de nacionalidade, de identidade, de povo, é tão importante para um país que os próprios políticos estão sempre falando em nome do povo. Porquê? Façam a merda que fizerem sempre voltam com o mesmo discurso empolado. É porque confiam na capacidade de dominação das massas com a posição que alcançou. Com as alianças que fizeram, etc.. Mas é também, porque o povo fragilizado, incapaz de acreditar em si mesmo, incapaz de criticar o texto midiático cotidiano, se deixa convencer por outro, que ele acredita ser melhor que ele, mais iluminado.

Não sei se é uma boa analogia, mas, eles, os políticos, julgam que saíram da condição de lamparinas a querosene para a condição de holofotes por conta própria. Acham que podem ofuscar aqueles que se vêem com luz humilde, luz de lamparina. Se esquecem de que foi com a luz do voto popular (luz de lamparina) que eles podem se pensar como holofote. Como uma luz maior que eles tiram do povo. É muito importante uma discussão mais profunda acerca do atual sistema de representação política.

O segredo está em acreditar na luz que possui. Uma luz de lamparina também pode se transformar em um grande e pavoroso incêndio, ou numa linda fogueira. Acreditar em si mesmo, enquanto ser humano, e enquanto grupo, sociedade, desenvolver solidariedades para viver em equilíbrio. Eliminar as disparidades e injustiças, sem esquecer que a luz do povo brasileiro está na sua imensa diversidade cultural, que precisa ser aceita, assumida e valorizada.

Por um princípio norteador

Deve haver mais de uma forma de reconhecer, de visualizar o lugar ideológico de quem fala. Uma delas é por comparação, se esforçar por conhecer a realidade possível. É preciso ter algumas ferramentas que funcionem como princípios norteadores.

Por exemplo: (e são somente exemplos)
1) conhecer o sentido da democracia participativa e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
2) conhecer sobre o verdadeiro sentido da paz e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
3) conhecer sobre o verdadeiro sentido do respeito à diversidade e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
4) conhecer o sentido da solidariedade e ser capaz de fazer dela uma bandeira de luta.
5) conhecer o verdadeiro sentido da liberdade e ser capaz de fazer dele uma bandeira de luta?

Em todos e quaisquer outros casos, conhecer a realidade que nos cerca, procurar as ferramentas adequadas e sempre com vistas a uma sociedade justa e progressista. Sem a exploração do outro. Sem dominar o semelhante e sem dominar o diferente. Dialogar e negociar, ainda que em função dessas diferenças, naturais ou não. Sempre no sentido de manter a unidade humana. A humanidade de nossas gentes, sejam elas vistas como grupos, comunidades,  estados nações ou como civilização planetária.

Wilson Geraldo de Oliveira

2 comentários

  1. Sonia M Menezes

    Como diz o ditado: política, religião e futebol não se discutem. É certo que gera paixões e por causa dessa paixão nasce a intolerância ao contraditório. Hoje fazemos parte de uma sociedade dividida. Essa divisão gera contradições e as redes sociais favorecem as discussões. Por não se verem cara a cara as pessoas expõem seus pensamentos. Pensamentos estes com tempo hábil para respostas, pois não há exigência do imediatismo como acontece no cara a cara. Aquele que lê poderá refletir melhor, usufruindo do tempo para melhorar sua resposta, evitando ou não a agressão ao outro. Usamos sim as redes sociais e todo tipo de mídia para impor uma ideologia, um ponto de vista, com o intuito de convencer o outro. E assim, o aperfeiçoamento de técnicas para melhor convencimento da massa tem grande valor. Convence mais e melhor aquele que mais rápido acessar as mentes massificadas.

    1. Wilson

      Talvez possamos começar a pensar na contestação de certos jargões, como este “Política, religião e futebol não se discutem”. É muito comum quando a pessoa quer fugir do assunto, porque se continuar a discutir poderá se sentir coagida a mudar de opinião. Mas, por essa fórmula escapista, o assunto se torna um objeto de discussão cuja proibição se legitima no dito ou “sabedoria” popular. Surgem estes nichos temáticos sobre os quais não se podem discutir. Blindados, protegidos pelo dogmatismo. Entretanto, estes nichos onde as discussões não podem acontecer têm levado muitos líderes inescrupulosos ao poder.
      Como isso pode acontecer? E a qualificação das representações não poderia ser feita por meio do debate? Minimizaríamos com o debate o dano da manipulação de massas? E se temos tempo para o debate virtual, este debate não deveria ser qualificado? Menos agressivo, menos chulo, como também é muito comum quando a discussão se intensifica?
      Imagino que intensificar a discussão sobre estes assuntos pode ser desgastante para muitos, exatamente por causa dos excessos de uns e outros. Ou seja, depende do fórum íntimo, da disposição para o diálogo com o devido respeito ao outro. Respeitar o outro, não quer dizer necessariamente, concordar com sua opinião, mas aceitar que existem diferenças de opinião e que tanto você quanto o outro pode ter opiniões diferentes. Nesse caso a conclusão será a demarcação dos limites para um e para o outro no que respeita ao entendimento do que está em discussão. E um outro ponto muito importante é colocar a discussão em termos presentes. Eu penso assim hoje. O outro pensa assim hoje. Amanhã tanto um quanto o outro poderão mudar de opinião e isso é muito salutar. O pensamento é sempre algo dinâmico, em constante construção. Portanto, está sempre sujeito a mudanças.
      Sônia, obrigado pela sua participação querida!

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